Archive for julho, 2010

Mulheres-feira: diferenças e opressões

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Hoje, quase passou desapercebido por mim a matéria cujo título era: Mulher Alface prega vegetarianismo e é presa na Jordânia.

Enquanto lia “mulher alface” foi praticamente inconsciente o ato de pular e seguir para a próxima matéria do jornal da manhã. Mas depois, um pouco de trâsito paulistano foi o responsável por eu pegar o jornal novamente e ler aquelas pequenas matérias que haviam ficado para trás, mais desimportantes… e aí li o título inteiro e a nota completa.

Achei muito interessante o protesto e me chamou a atenção a frase “A polícia afirmou que as mulheres não têm autorização para realizar manifestações.” e a carga machista que ela contém.

E por que diabos eu pulara o tal texto? Por quê? Isso me incomodava…

Pensei nisso ao longo do dia e acabei achando a resposta: eu achara que era mais um modelo de mulher-fruta lançado recentemente pela mídia, em algum programa de auditório ou algum baile funk, tal qual mulher melancia, mulher samambaia, ou algum outro artigo encontrado em feiras livres.

E não é que algo realmente as ligam? A opressão de gênero.

Para a alface, uma repressão por ela protestar, repressão por ela ser mulher e querer expressar-se, repressão ao seu direito de livre expressão.

Para a melancia e a samambaia, repressão por elas tornarem-se produto de consumo, repressão por elas não poderem se expressar de outra maneira, com reconhecimento, que não tirando a roupa e excitando os homens que perdem seus olhos pelas bancas com seus pintinhos moles.

A alface reivindica consciência de consumo, a melancia e a alface propiciam consumo da consciência.

A todas é tolhido o direito de livre expressão. À do oriente não é permitido manifestar ou tirar a roupa; às do ocidente só é permitido tirar a roupa – ou alguém sabe o que as brasileiras pensam sobre alguma coisa?

CAPES e CNPQ autorizam recebimento além da bolsa de pós

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Na última sexta-feira, foi publicada a Portaria Conjunta nº 1, redigida pela CAPES e pelo CNPq, que autoriza o recebimento de complementação financeira proveniente de outras fontes, que não a bolsa de pós-graduação concomitante ao recebimento desta.
Não é algo completamente aberto e tem as seguintes recomendações / limitações:
– é vedado o recebimento simultâneo de bolsas provenientes de agências públicas de fomento;
– as atividades a que se dediquem os bolsistas, para além da pesquisa, devem se relacionar com sua área de atuação / interesse e contribuir para sua formação acadêmica, científica e tecnológica;
– é visto com bons olhos que essa atividade remuerada concomitante seja a docência (em qualquer grau de ensino);
– para poder receber a complementação financeira, o bolsista deve obter autorização de seu seu orientador, devidamente informada à coordenação do curso ou programa de pós-graduação.
Se por um lado é bom que o(a) pesquisador(a) não fique alheio(a) do mundo ao realizar seu trabalho de pós-graduação, ao mesmo tempo, priorizar a atividade de docência não é exatamente possibilitar aos(às) pesquisadores(as) inserirem-se no mundo do trabalho para além das universidades. Assim, essa portaria vem apenas reconhecer o que já vem ocorrendo, na surdina, com os(as) estudantes de pós-graduação: recebem bolsas insuficientes para manter padrões mínimos de vida e conforto e, assim, procuram outras atividades remuneradas – até então, não registradas ou assumidas, seja pelo contratado, seja pelo contratante. Desta forma, assume-se que não dá para viver sendo pesquisador no Brasil – quem queria ser pesquisador, ou tem uma vida estoica, ou que se desdobre em outras atividades para pagar as contas do lar.
Por outro lado, menos mal que se incentive a atividade de docência (em qualquer grau) – tão necessaria ao desenvolvimento de uma nação. Assim, ao invés de incrementar o salário dos docentes, coloca-se a opção de que sejam também pesquisadores, aumentando sua jornada para que aumentem sua renda. E vice-versa: ao invés de incrementar as bolsas de pós-graduação, abre-se a possibilidade de que trabalhem mais, assim têm o direito de ganhar o necessário.
Não lhes fica a dúvida: por que não se investe, de fato, em educação, ciência e tecnologia?

Festival do Japão 2010

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Poucas horas no Festival do Japão foram suficientes para me deixar ainda mais admiradora e curiosa sobre esse país e sua

pintura em guache preto, técnica sumi-ê

Pintura em guache preto

respectiva cultura. A forma com que transformam planos de seda em animais tridimensionais, a delicadeza dos detalhes de brincos, quimonos e artes visuais me encantaram. Mas houve coisas não tão agradáveis como as filas e a música contemporânea. O saldo foi positivíssimo: um livro de origami (que venho namorando há tempos), um outro sobre a”moderna cozinha japonesa”, flores, marcador de páginas e cartão de kirigami que eu própria fiz…

Vou comentar um pouco sobre as primeiras páginas do “Moderna cozinha Japonesa: comida, poder e identidade nacional”, de Katarzyna J. Cwiertka, que de receitas não tem muito…

Passo a entender que a ocozinha japonesa que conhecemos tem pouco de suas origens e é, cada vez mais, produto de uma certa ocidentalização da culinária nipônica. Vale falar da trajetória do sushi, carro-chefe da culinária japonesa no mundo.

O sushi era ancestralmente uma forma de consevar o peixe: pedaços de carpas eram prensadas entre placas de arroz cozido (narezushi) que, inicialmente, eram descartadas e só pelo século XVI passaram a ser comidas também, afim de evitar desperdício. Read more »

Voltou a escrever sobre democracia

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“Voltou a escrever. Durante muitas horas, ao lado dos sobressaltos de uma guerra sem futuro, traduziu em versos rimados as suas experiências na borda da morte. Então os seus pensamentos se fizeram tão claro que os pode examinar pelo direito e pelo avesso. Uma noite perguntou ao Coronel Gerineldo Marquez:

– Diga uma coisa, compadre: por que você está brigando?

– Por que há de ser, compadre – respodeu o Coronel Gerineldo Marquez – pelo grande Partido Liberal.

– Feliz é você que sabe disso – respodeu ele – Eu, de minha parte, só agora percebo que estou brigando por orgulho.

– Isso é ruim – disse o Coronel Gerineldo Marquez.

O Coronel Aureliano Buendía se divertiu com o seu sobressalto “Naturalmente”, disse. “Mas em todo caso, é melhor isso que não saber por que se briga.” Olhou-o nos olhos, e acrescentou sorrindo:

– Ou brigar como você, por alguma coisa que não significa nada para ninguém.” *

Senti-me como se conversando com o destemido Coronel Aureliano Buendía, sentado em sua cadeira de balanço, com o olhar fixo e penetrante nos meus olhos, a repertir-me com seu ar premonitório “ou brigar como você, por alguma coisa que não significa nada para ninguém”

* trecho retirado da obra Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez