Que fazer?

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Hoje fiz minha última avaliação da graduação, paralelo a isso ocorrem várias outras coisas: 3º lugar no concurso da CPTM,  bom resultado no teste de proficiência de inglês para o mestrado no PTR e talvez um diploma duplo de engenharia civil e arquitetura esteja a caminho! Ao mesmo tempo, todos nós envelhecendo, pais, tios e tias sentindo o peso do tempo soprando em seus pulmões e sobrecarregando corações que aproveitaram a vida. E encontro-me num misto de euforia – finalmente me livrei da graduação da Poli! – e incertezas… E agora? Qual o foco? Ganhar dinheiro? Construir uma família? Continuar estudando e pesquisando o que gosto? Tentar mudar o mundo? Tudo isso junto? É possível? Ser feliz? O que preciso para ser feliz? É possível ser feliz?
Nessas horas, me volto aos livros, aqueles que me assistem dormir todos os dias e aos quais vivo prometendo dar atenção um dia – o dia em que eu finalmente me formar…. e me deparei, de novo, com essa poesia do Ferreira Gullar:

Você que mora no alheio,
que anda de lotação,
que trabalha o dia inteiro
pra enriquecer o patrão
-que ainda espera desse mundo
de injustiça e exploração?

Você que paga aluguel,
que pagará toda a vida
a casa que não é sua,
que pode a qualquer momento
ser posto no olho da rua
-que pode esperar da vida
que deveria ser sua?

Que pode esperar da vida
quem a compra à prestação?
Quem não tem outra saída:
-ser escravo ou ser ladrão?
Que pode esperar da vida
que a recebe vendida
por seu pai ao seu patrão?

Pro patrão você trabalha
dia e noite sem parar.
Você queima a sua vida
pra ele a vida gozar.
Você gasta a sua vida
pra dele se prolongar.
Você dá duro, padece,
você se esgota, adoece,
e quando, enfim, envelhece
o que é ruim vai piorar.

Só então você percebe
que tempo você perdeu.
Você vê que sua vida
foi dura mas não valeu.
Você passou a seu filho
o mundo que recebeu:
O mundo injusto e sem brilho
que, de fato, nem foi seu,
que não será do seu filho
se nele não se acendeu
o sentimento profundo
que traz o homem pra luta
-luta que fará o mundo
ser dele, ser meu, ser teu.

Por isso meu companheiro,
que trabalha o dia inteiro
pra enriquecer o patrão,
Te aponto um novo caminho
para tua salvação,
a salvação de teu filho
e o filho do teu irmão:
Te aponto o caminho novo
da nossa revolução.

Então verás que tua vida
ganha nova dimensão,
que em vez de triste e perdida
terá força e direção.
E cada homem da rua
Verás como teu irmão
que, sabendo ou não sabendo,
procura a libertação.

Sentirás que o mar que bate
na praia não bate em vão;
Que a flor que cresce no Meyer
não cresce no Meyer em vão;
Que o passarinho que canta
não canta pra teu patrão;
Que a grama verde que cresce
empurra a revolução.

O mundo ganhou sentido,
teu braço ganhou função.
A revolução floresce
na minha, na tua mão,
que nada há mais que a detenha
-nem polícia nem bloqueio
nem bomba nem
“Lacerdão”-
que ela assobia no vento
e marcha na multidão,
ilumina o firmamento,
gira na constelação

porque já foi deflagrada
no meu, no teu coração.

(Ferreira Gullar)