Archive for dezembro, 2013

Como se ensina a ser menina

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como_ensina_ser_meninaComo se ensina a ser menina – o sexismo na escola” de Montserrat Moreno é um livro curto e contundente. Tem como principal objetivo demonstrar que existe sim uma educação sexista nas escolas, mesmo quando isso é negado ou ignorado. Mas se engana quem acha que é mais um livro que critica e que deixa-nos abandonados em meio de uma crise ao seu final. Não é assim, Moreno aponta saídas e mudanças possíveis – e mesmo necessárias – mas não entrega fórmula mágica, pronta e de final feliz como muitos ávidos consumidores esperam do modelo hollywoodiano de consumo cultural.

Ela começa pincelando aqui e ali como se dá a construção da noção de gênero, que ao contrário do sexo, não é nato nem determinado biologicamente. A introdução é recheada com exemplos vindo da antropologia. Daí engancha-se a discussão sobre o papel da Escola na modelagem de comportamento de meninas e meninos e ela explora de forma bastante clara como a Escola transmite conceitos sexistas, reproduzindo um discurso não dito que reforça que mulher é um elemento social de segunda categoria. Ela demonstra como isso ocorre falando um pouco do currículo de história – onde estão ou estavam as mulheres nos livros de história? Atividades diversas as mulheres exerceram, então onde e por que esconderam a narrativa dessas vidas?

“É verdade que guerras, intrigas e crimes marcam nossa história, mas não é menos verdade que, se nossos antepassados tivessem se limitado a essas atividades, não estaríamos aqui para ler sua narrativa. Por que se priorizam tanto essas atividades?”

A autora explora também como passamos mensagens através da linguagem. Uma menina aprende que existem marcador de linguagem para quem vai dirigir-se a ela, a declinação de gênero. Também o faz o menino. Mas se são várias crianças, docentes referem-se a “eles” na maior parte do tempo e raramente a “eles e elas” e, geralmente, nesta ordem. Aprendemos muito pela linguagem, aprendemos simbolicamente que num conjunto misto devemos aceitar como normal a invisibilização e quando muito, aparecer assim, enunciadas, mas nunca na posição primeira, de destaque.

Além da mulher não ter história e também ter espaço secundário ou inexistente na linguagem, também é discutido um pouco como o sexismo passa por todo o conteúdo escolar, inclusive os mais “objetivos”, ou seja, aqueles pertencentes ao campo das ciências ditas exatas. Moreno pontua:

“O rendimento intelectual que se espera das meninas é sempre inferior ao que se espera dos meninos (…) As explicações que têm sido dadas são te todos os tipos. (…) Edward Clarke assegurava que as meninas não deviam ser pressionadas a estudar porque, se o seu cérebro fosse obrigado a trabalhar durante a puberdade, esgotar-se-ia o sangue necessário na menstruação.”

Ela expõe muitas das baboseiras que historicamente foram argumentos válidos e importantes contribuintes para a nossa atual visão do que é “ser mulher” e o que é “ser homem”. Dando-se conta do sexismos existente no currículo explícito e no oculto a reação de muitas(os) professoras(es) é querer erradicá-lo. Muitas(os) profissionais da educação então convencem-se que erradicaram o sexismo de suas aulas “porque tratam igualmente as meninas e os meninos” – será que isso conduz ao objetivo almejado? Será que a liberdade é plenamente exercível na nossa sociedade? Não seria utópico demais querer saltar fora de um modelo bem conformado em que mulheres são sensíveis e frágeis e homens são fortes e não podem chorar?

Enfim, “se falta algo às mulheres, como grupo, são utopias”: boa leitura!

Controle de gestão

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Hoje fiquei encasquetando aqui em como a participação social em nível abstrato pode virar participação e controle social no cotidiano e saiu isso que relato abaixo.

Transparência ativa
Para poder exercer qualquer tipo de controle é preciso que existam informações disponíveis, de preferência como dado aberto (clique aqui para saber o que é dado aberto). Ou seja, é importante que dados brutos (para além das informações tratadas) sejam disponibilizadas pelo caráter público que detêm, e não apenas mediante pedidos das(os) cidadãs(os). Isso porque a inércia que a burocracia representar é bastante grande e desestimula o pedido. Além disso, disponibilizar dados pela internet, exercendo transparência ativa é uma forma ótima de gerir já que aquela dada informação será visível e acessível a todo mundo, ao passo que se um órgão ou governo for atendendo pedido a pedido individualmente, várias pessoas acabam por pedir a mesma coisa e várias repostas precisarão ser dadas, multiplicando desnecessariamente o trabalho do(a) servidor(a) público(a).

Fiscalização e acompanhamento de gestão
Se alguém, qualquer pessoa, quiser saber a sua prioridade, ou da sua empresa ou do seu governo o primeiro aspecto que olhará será o orçamento. Discursos e ideias são importantes e guiam a gente, mas sem dinheiro alocado para implementação de ações as “ideias não saem do papel”.
Assim, o acompanhamento do PPA, LDO e LOA são fundamentais e isso pode ser feito acompanhando as votações no legislativo. No entanto, não é tão fácil assim acompanhar ao legislativo. Quem sabe e onde encontramos as pautas tanto das plenárias como das comissões? Isso ainda não é tão simples de averiguar quanto pode parecer à primeira vista.
Participar dos conselhos é outro caminho, mas que conta com entrave que precisa ser superado que é o caráter deliberativo que se faz necessário. Porque participar para falar, falar, falar e ninguém ouvir é insustentável e desmotivante.

Conselho de Planejamento e Orçamento Participativos (CPOP) em São Paulo
Como resultado da CONSOCIAL está havendo em São Paulo uma movimentação para a elaboração colaborativa da minuta da proposta (de decreto) de criação do Conselho de Planejamento e Orçamento Participativos – CPOP (ver http://consocial.com.br/201311cpop.asp). Este conselho, por exemplo, tem “caráter propositivo e participativo em questões relacionadas à elaboração e execução do ciclo de planejamento e orçamento da Prefeitura do Município de São Paulo”. Isto é, a sociedade quer participar inclusive do momento do planejamento do orçamento, mexendo nas prioridades a serem elencadas – estou indo lá dar meus pitacos e você?