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Hackathon de Gênero – start dado

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Na última quarta-feira (14/maio) participei de uma reunião no LabHacker da Câmara dos Deputados para discutir sobre a realização de um Hackathon de Gênero na Câmara dos Deputados.

No começo, ficamos tentando acertar comunicação com pessoas que não puderam ir a Brasília mas que estavam dispostas a participar e ajudar a construir uma Maratona Hacker com essa temática. Começamos com uma rodada de apresentação que, considerando a quantidade de pessoas que tivemos*, foi bem pragmática e rápida. Por fim, a Raquel do LabHacker colocou a pauta e começamos a reunião.cdep_hackathon_genero

Eu comecei falando um pouco do que é ser hacker, ou melhor, falando o que um hacker não é. E porque isso é importante, porque essa abordagem é relevante (ao menos para mim)? Porque trata-se de uma disputa de significados, porque trabalha o limite da conceituação e da ressignificação recorrentemente. Para mim é uma disputa análoga à que ocorre com a palavra vadia pelo movimento feminista (ou parte dele). Ao ponto então, hacker não é sinônimo de criminoso. Se sou hacker isso não significa que invado sistemas, que infrinjo leis, nem mesmo que eu saiba codar. Isso mesmo, o termo nasceu da área da programação mas ganhou amplitude e é nessa amplitude de significado que me identifico. Hackers são pessoas que têm curiosidade por entender algo sincera e profundamente. Esse algo pode ser um sistema eletrônico, pode ser um motor, pode ser uma cidade, pode ser a política.

Porém, num mundo em que a cultura do obscurantismo é cultivada, ser curioso e querer entender como funcionam as engrenagens de um sistema (seja qual for) pode ser entendido como crime. O obscurantismo está em oposição à transparência, palavra mágica da moda também objeto de disputa. A questão para mim é que não quero viver num mundo de subterfúgios e necessário burlamento de regras, entendo que os conflitos devem ser públicos para que mutuamente decidamos a legitimidade acerca dos assuntos. Nem para mim nem para as futuras gerações desejo um mundo obscuro, de regras não ditas, e por isso milito em prol da transparência (especialmente a pública), às claras. Por isso faço parte da Transparência Hacker. thacker-feat

“Hackers resolvem problemas e constroem coisas, e acreditam na liberdade e na ajuda mútua voluntária.” (Raymond por Rafael)

As deputadas fizeram falas inspiradoras e registro aqui não todas, mas dois pontos que me marcaram. O primeiro foi em relaciona-se a uma frase que falava da importância da pressão de organismos internacionais sobre o Brasil pois “eles fazem com que nossos governantes se não compreenderem por convicção, que compreendam por necessidade” a relevância e urgência no tratamento da questão da violência contra a mulher. Uma vítima é violentada por minuto no Brasil, então se você ler em média 1100 caracteres por minuto, ao fim deste texto 8 pessoas terão sido vítimas de violência. Houve enorme convergência em torno deste ponto: a urgente necessidade de se combater a violência contra mulher. E quase que o Hackathon fecha o foco sobre isto.

Ainda bem que não o fez… (?!) Explico-me. Um  sobre violência contra a mulher é ótimo, mas fecha demais o foco ao meu ver. Um Hackathon de gênero é mais amplo em temática primeiro porque gênero, é um conceito em mutação e isso não é ruim. Scott já apontava ser uma categoria útil de análise histórica, mas que ainda lida com a dualidade masculino/feminino. Butler, por sua vez, critica o uso da categoria gênero pois entende que “aprisiona o sexo em uma natureza inalcançável à nossa crítica e desconstrução“. As pessoas trans finalmente conseguiram identificação com alguma teoria acadêmica acerca de sua condição no mundo, considerando fundamentalmente o conceito de performatividade. Nossa sociedade ainda funciona muito na lógica dual e isso não deve ser desprezado, entretanto, estar consciente de que a proposta de uso da palavra gênero é para abrir mais à participação, compreendendo que vítimas de violência pode ser a mulher, cis, heterossexual, ou a transsexual, ou a bissexual.

É preciso também ampliar o escopo da palavra violência, as relações de poder que garantem a produção e reprodução da violência também precisam ser exploradas. Quantas deputadas temos mesmo na Câmara dos Deputados*? 57 em 583 (~8,9%) na legislatura que se encerra em breve. Quantas mulheres temos no STF? Somente 2, dentre 11, perfazendo (18%). E assim eu poderia exaustivamente apontar números que corroboram o fato de que mulheres são minoria em posições de tomada de decisão, não apenas no âmbito da carreira pública, mas também na iniciativa privada.

O outro ponto da reunião que me marcou foi a demanda das deputadas por entender mais de tecnologia e de mídias sociais. Ficando aí apontada já uma ação possível para o LabHacker trabalhar: RodAda Hacker para deputadas e acho que deveria haver também para servidoras da casa. Ah,vou adiantar para quem ficou com preguiça de clicar no hiperlink: RodAda Hacker são oficinas para “mulheres que querem aprender a programar projetos web, além de trocar, compartilhar e construir projetos incríveis na rede – um dia inteiro de mão-na-massa para quem quer aprender fazendo e se divertindo!” Propaganda feita, crédito dado à idealizadora Daniela Silva, é preciso que façamos isso rolar mesmo no LabHacker, que por enquanto só conta com a Raquel de representante feminina por lá.

Eu e a Nessa, do MariaLab, apresentamos alguns projetos à deputadas para materializar as potencialidades que uma maratona de programação pode trazer:

Radar Parlamentar: objetivo fazer uma análise gráfica da participação de mulheres e homens na Câmara Federal. Isto é, pode-se observar as participações feminina e masculina na casa legislativa, seja do ponto de vista quantitativo, seja do ponto de vista qualitativo.
Circle of 6: um aplicativo em que é possível selecionar uma rede de contatos próxima (6 pessoas) que serão acionados caso necessário, seja para ir buscar em algum lugar que precise porque se sente insegura até acionar polícia/ou outro nº programado em caso de violência.
Chega de Fiu Fiu: campanha criada para lutar contra o assédio sexual em locais públicos, mas quer também lutar contra outros tipos de violência contra a mulher.
HackDay Direito da Mulher: Um hackday é um evento para colocar a mão-na-massa, abrir os sistemas existentes, entender como eles funcionam, reverter mecanismos para que funcionem em favor das causas que apoiamos. Durante o HackDay Direitos da Mulher, foram explorados os dados da polêmica pesquisa do IPEA, bem como os decorrentes comentários surgidos nas redes sociais.
Edit-a-thon das Mina: uma maratona de edição das páginas na Wikipédia de grandes mulheres.

Objetivamente o que se encaminhou foi:

1) Haverá o Hackathon e ele conta com apoio das deputadas da bancada feminina

2) Haverá uma trilha geral sobre legislativo e uma trilha temática sobre gênero

3) Depois do resultado do Hackathon, haverá chamada para o Concurso sobre a Lei Maria da Penha, com a produção de aplicativos sobre o tema da lei (combate à violência contra mulher).

4) Indicativo de data: segunda quinzena de novembro de 2014
(já opinando, acho que não deve ser na semana que inclui o dia 20/nov pois isso acaba sendo concorrencial com o movimento negro)

Por fim, vale pontuar que tivemos dificuldades técnicas para comunicação via vídeo-conferência, mas que podem ser relevadas já que o Laboratório é um espaço novo, com meses de vida, e está engatinhando…

Abaixo, a lista das pessoas que puderam estar presentes e a quem agradeço a sororidade.

Deputadas
Deputada Jô Moraes (PCdoB/MG) – Coordenadora da Bancada Feminina
Deputada Rosane Ferreira (PV/PR) – 1ª Coordenadora Adjunta da Bancada Feminina
Deputada Erika Kokay(PT/DF) – 3ª Coordenadora Adjunta da Bancada Feminina
Deputada Janete Rocha Pietá (PT/SP)
Deputada Rebecca Garcia (PP/AM)
Deputada Keiko Ota (PSB/SP)

Assessorias
Joseanes dos Santos – Assessora Dep. Janete Pietá (PT/SP)
Marcela Travassos – Assessora da Dep. Erika Kokay(PT/DF)
Mariana – Assessora da Dep. Luiza Erundina (PSB/SP)

Câmara dos Deputados
Cássia Botelho – Diretora Geral Adjunta
Maria Raquel Melo – Laboratório Hacker
Cristiano Ferri – Coordenador do Laboratório Hacker

Equipe Secretaria da Mulher
Lin Israel – Chefe de Gabinete
Gerson Scheid – Comunicação
Talita Silva – Assessoria Comissões
Clara Monteiro – Eventos
Marília Ribas – Jurídico
Candyce Rocha – Assessoria Política / Relações Institucionais

Movimento Hacker
Haydee Svab,THacker, PoliGNU e PoliGen (SP)
Kamilla, Barco Hacker (PA)
Karine, psciológa que trabalha com gestão de pessoas na área de TI (DF)
Carine, do HackerSpace Garoa Hacker Clube (SP)
Nessa Guedes, do HackerSpace Maria Lab (SP)
Salete, professora do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Maranhão (MA)
Claudia Archer, professora da Universidade Ceuma (MA)
Larissa, pesquisadora da Incubadora de Políticas Públicas da Amazônia (PA)
Luciano Santa Brígida, Thacker (DF)

Banco Mundial
Boris Utria – Diretor de Operações do Banco Mundial para o Brasil
*Deputados – o nome da Casa Legislativa grafa-se no masculino, alguns dirão que o masculino engloba homens e mulheres só que muitas mulheres não acham que essa linguagem lhes é pertinentes, eu também não.

Como se ensina a ser menina

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como_ensina_ser_meninaComo se ensina a ser menina – o sexismo na escola” de Montserrat Moreno é um livro curto e contundente. Tem como principal objetivo demonstrar que existe sim uma educação sexista nas escolas, mesmo quando isso é negado ou ignorado. Mas se engana quem acha que é mais um livro que critica e que deixa-nos abandonados em meio de uma crise ao seu final. Não é assim, Moreno aponta saídas e mudanças possíveis – e mesmo necessárias – mas não entrega fórmula mágica, pronta e de final feliz como muitos ávidos consumidores esperam do modelo hollywoodiano de consumo cultural.

Ela começa pincelando aqui e ali como se dá a construção da noção de gênero, que ao contrário do sexo, não é nato nem determinado biologicamente. A introdução é recheada com exemplos vindo da antropologia. Daí engancha-se a discussão sobre o papel da Escola na modelagem de comportamento de meninas e meninos e ela explora de forma bastante clara como a Escola transmite conceitos sexistas, reproduzindo um discurso não dito que reforça que mulher é um elemento social de segunda categoria. Ela demonstra como isso ocorre falando um pouco do currículo de história – onde estão ou estavam as mulheres nos livros de história? Atividades diversas as mulheres exerceram, então onde e por que esconderam a narrativa dessas vidas?

“É verdade que guerras, intrigas e crimes marcam nossa história, mas não é menos verdade que, se nossos antepassados tivessem se limitado a essas atividades, não estaríamos aqui para ler sua narrativa. Por que se priorizam tanto essas atividades?”

A autora explora também como passamos mensagens através da linguagem. Uma menina aprende que existem marcador de linguagem para quem vai dirigir-se a ela, a declinação de gênero. Também o faz o menino. Mas se são várias crianças, docentes referem-se a “eles” na maior parte do tempo e raramente a “eles e elas” e, geralmente, nesta ordem. Aprendemos muito pela linguagem, aprendemos simbolicamente que num conjunto misto devemos aceitar como normal a invisibilização e quando muito, aparecer assim, enunciadas, mas nunca na posição primeira, de destaque.

Além da mulher não ter história e também ter espaço secundário ou inexistente na linguagem, também é discutido um pouco como o sexismo passa por todo o conteúdo escolar, inclusive os mais “objetivos”, ou seja, aqueles pertencentes ao campo das ciências ditas exatas. Moreno pontua:

“O rendimento intelectual que se espera das meninas é sempre inferior ao que se espera dos meninos (…) As explicações que têm sido dadas são te todos os tipos. (…) Edward Clarke assegurava que as meninas não deviam ser pressionadas a estudar porque, se o seu cérebro fosse obrigado a trabalhar durante a puberdade, esgotar-se-ia o sangue necessário na menstruação.”

Ela expõe muitas das baboseiras que historicamente foram argumentos válidos e importantes contribuintes para a nossa atual visão do que é “ser mulher” e o que é “ser homem”. Dando-se conta do sexismos existente no currículo explícito e no oculto a reação de muitas(os) professoras(es) é querer erradicá-lo. Muitas(os) profissionais da educação então convencem-se que erradicaram o sexismo de suas aulas “porque tratam igualmente as meninas e os meninos” – será que isso conduz ao objetivo almejado? Será que a liberdade é plenamente exercível na nossa sociedade? Não seria utópico demais querer saltar fora de um modelo bem conformado em que mulheres são sensíveis e frágeis e homens são fortes e não podem chorar?

Enfim, “se falta algo às mulheres, como grupo, são utopias”: boa leitura!


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